Doenças
March 3, 2025
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4 min.

Síndrome de Cotard, a vida e a morte como variantes da percepção humana

Autores: Dr. Fabrício Kleber e Acad. Valéria Gresczeschen

Síndrome de Cotard, a vida e a morte como variantes da percepção humana

Foto por Guillaume de Germain no Unsplash

Falar, escutar e pensar sobre a morte para a maioria das pessoas é difícil e complexo. E para quem está vivo, mas acha que está morto? O nosso cérebro é responsável pelo reconhecimento e interpretação do ambiente ao nosso redor mas também pelo nosso contexto interno. O reconhecimento da existência do próprio corpo e da própria individualidade é um pré-requisito importante para a vivência plena e saudável. Este fato é exagerado e deflagrado de forma contundente em uma patologia em que os portadores acreditam que estão mortos. Muitos desconhecem esta síndrome rara e tão singular, na qual os acometidos recusam a existência de seus próprios órgãos e sangue, além de acreditarem que suas partes corpóreas, incluindo a alma, estão mortas, fadados assim, a perambular pela eternidade com um verdadeiro vazio dentro de si [2]. Neste texto vamos abordar alguns detalhes da Síndrome de Cotard, que provavelmente seja umas das síndromes neurológicas mais impressionantes.

Em 1882, na França, o neurologista Jules Cotard descreveu pela primeira vez a síndrome, a priori chamada de “Delírio das Negações’’. Hoje em dia é conhecida como Síndrome de Cotard ou Síndrome do Cadáver Ambulante [2], [3]. Sendo definida como uma condição neuropsiquiátrica rara, no qual os sintomas variam desde ideias de destruição espontânea de órgãos, corpo e alma até a negação completa da própria existência [4], [5].

Alguns pacientes relatam que vermes acometem suas estranhas, que suas vísceras são ocas, que sentem o cheiro da própria carne em estado de decomposição e que não há mais sangue no corpo. Por acreditar que estão em processo de putrefação, acham que as pessoas à sua volta têm ojeriza ao odor fétido, trazendo como consequência quadros psicóticos e de depressão profunda [2]. Somado a isso, há a crença em sua imortalização, sendo esta não uma ideia de grandeza, mas sim, o sinônimo de subjugação a uma punição inacabável, afinal estão "mortos", mas condenados a "viver", entenda que é realmente um verdadeiro paradoxo [2]. Há, ainda, casos de pessoas que dormiam no caixão e que suplicavam para terem seus corpos enterrados, pois estes, segundo os doentes, estavam em vias de deterioração [2]. Algumas pessoas recusam-se a se alimentar, devido à falsa crença de que não têm estômago ou que não são dignos do alimento, acarretando assim, em má-nutrição [2].

As causas não são exatamente conhecidas, no entanto, no começo é possível notar nos pacientes uma série de sintomas comuns, como: tristeza exacerbada, má socialização, anedonia, ansiedade acentuada, diminuição do sono e apetite, ideias de inutilidade, desesperança, pecado, culpa, além de depressão e esquizofrenia [3], [4], [6]. O tratamento deve se concentrar na doença subjacente. [2], [10].

Na Síndrome de Cotard, evidencia-se, ainda, que a sintomatologia é arquitetada, em grande parte, por ideias niilistas e caracterizada por comorbidades ou defeitos orgânicos cerebrais. No entanto, apesar de sua apresentação marcante e de sua relevância para a nossa compreensão da autoconsciência, a síndrome permanece uma condição indescritível, raramente relatada, com pouca evidência científica.

Referências:

[1] LOBATO, Milene Dayana Paes. A concepção filosófica da morte em Schopenhauer. 2017. Disponível em: file:///C:/Users/Cliente/Downloads/12907-Texto%20do%20artigo-41395-1-10-20180209.pdf. Acesso em: 03 jul. 2021.

[2] OLMI, Marina Plain et al. Síndrome de Cotard: a busca pela vida num delírio de morte. 2016. Disponível em: file:///C:/Users/Cliente/Downloads/97-444-1-PB.pdf. Acesso em: 04 jul. 2021.

[3] RUMINJO, Anne; MEKINULOV, Boris. A Case Report of Cotard’s Syndrome. 2008. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2695744/. Acesso em: 04 jul. 2021.

[4] SOLIMINE, Susan et al. Cotard Syndrome: “I’m Dead, So Why Do I Need to Eat?”. 2016. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4956420/. Acesso em: 0 jul. 2021.

[5] NICOLATO, Rodrigo et al. Síndrome de Cotard associada ao uso de ecstasy. 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbpsiq/a/fNbCGyBprKGPD9h6Ch39x5k/?lang=pt&format=pdf. Acesso em: 04 jul. 2021.

[6] GROVER, Sandeep et al. Cotard's syndrome: Two case reports and a brief review of literature. 2014. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4271387/. Acesso em: 04 jul. 2021.

[7] MACHADO, Leonardo et al. Cotard's syndrome and major depression with psychotic symptoms. 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbp/a/kGDpYJXDN8jmCxKjZkPSdSr/?lang=en. Acesso em: 04 jul. 2021.

Autores:
Dr. Fabrício Kleber
Acad. Valéria Gresczeschen

Publicado originalmente em 2021 na plataforma Vitallogy.