Neurofisiologia
March 5, 2025
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6 min.

As Reminiscências da Memória: o Vivido e o Rememorado

Autores: Dr. Fabrício Kleber e Acad. Letícia Baron Bortoluzzi

As Reminiscências da Memória: o Vivido e o Rememorado

Foto por Jon Tyson no Unsplash

“Nós, num relance, percebemos três copos numa mesa. Funes, todos os brotos e cachos de frutos que uma parreira possa conter. [...] Disse-me: Eu sozinho tenho mais lembranças que terão tido todos os homens desde que o mundo é mundo. E também: meu sonho é como a vigília de vocês. E ainda, por volta do amanhecer: Minha memória, senhor, é como um monte de lixo.”
Funes, o memorioso, de Jorge Luis Borges, p. 104-105

“Somos aquilo que lembramos - e também aquilo que não queremos lembrar”, a frase do médico e neurocientista Iván Izquierdo (2010) demonstra a importância de um principais elementos que constitui o ser humano: a memória, tendo em vista que o comportamento, a ação e a comunicação são alicerçados por ela, sendo essencial para a formação da personalidade. Além disso, o cérebro também age de forma muito eficaz na direção oposta, ou seja, na seleção de recordações que devem ser esquecidas, fazendo com que, consequentemente, o acesso a elas seja dificultado.

Inicialmente, é importante frisar que a aquisição da memória (e a sua persistência) ocorre sob a influência de um determinado estado emocional, visto que, provavelmente, não nos recordaremos das refeições efetuadas na semana passada, mas lembraremos do momento em que recebemos uma notícia trágica, como a morte de um ente querido, ou repleta de felicidade, como a aprovação no vestibular. Tudo isso se desenvolve em virtude da liberação de diversos hormônios, como a noradrenalina, a dopamina, a serotonina, a acetilcolina e a beta-endorfina, responsáveis pela modulação da ação nervosa cerebral.

Porém, ao se fazer a análise acerca das lembranças, deve-se destacar que a essência humana é permeada pelo compartilhamento, já que, constantemente, compartilhamos ideias, sentimentos, alegrias, tristezas e, especialmente, memórias, tendo em vista que são fortemente constituídas pelo coletivo. Assim, mesmo havendo a percepção individual e, muitas vezes, uma concepção ilusória de que as vivências são exclusivas e inéditas (e um segmento, de fato, é, haja vista que cada um possui experiências singulares), a sociedade exerce um papel fundamental na sua formação, em virtude da identidade coletiva que é estabelecida.

Dessa forma, Maurice Halbwachs (2006), sociólogo francês, defende que a memória individual é composta por várias memórias coletivas, fazendo com que a vivência do indivíduo seja uma perspectiva do grupo. Assim, na reconstrução do vivido, o teórico afirma que o testemunho é uma das principais fontes no momento da rememoração, aspecto reiterado por Paul Ricoeur (2007), filósofo francês, o qual assevera que o depoimento alheio atua como elo entre a lembrança de cada um e de seu grupo, por conta da recordação e do reconhecimento.

Tal processo é desencadeado quando o indivíduo se recorda de algo marcante e, posteriormente, ao identificar outros que tenham experienciado a mesma situação, emerge o senso de pertencimento. Assim, aos poucos, o depoimento dos demais age como instrumento de confirmação e complementação de detalhes, um exemplo capaz de ilustrar a afirmação é o do relato dos pais ao seu filho, ao examinar uma foto de aniversário de sua infância em que ele guarda poucas lembranças e, a partir do testemunho dos genitores, constrói a sua memória.

Portanto, o passado, em regra, apresenta uma distância significativa do que, de fato, ocorreu, tendo em vista que, baseado na teoria de Halbwachs (2006), apenas 1% seria vivido e 99%, reconstruído, já que as experiências visuais, verbais ou olfativas sofrem transformações em regiões do córtex cerebral para, em seguida, produzirem a memória. Dessa maneira, quando as vivências são rememoradas, elas sofrem alterações expressivas, visto que o passado está envolto na reconstrução, fazendo com as lembranças sejam maleáveis e flexíveis. Ao recordar, de acordo com David Lowenthal (1998), historiador americano, realizamos a ampliação de acontecimentos e a reinterpretação baseada na experiência posterior e na necessidade atual.

Na mesma linha, Izquierdo (2011) afirma que a memória é capaz de descartar informações e detalhes triviais ao longo do tempo, “anexando” mentiras e versões diferentes do que, realmente, foi vivido. Dessa forma,  o passado, quando o observador está em uma posição de distanciamento, acaba sendo, em muitas circunstâncias, visto de forma idealizada, como é possível observar na narração que muitas pessoas fazem acerca de sua infância, exaltando as experiências positivas e “esquecendo” as dificuldades e tristezas.

Nesse sentido, pode haver, ainda, a denominada “falsificação de memórias”, defendida pelo neurocientista mencionado, em que uma parcela significativa da recordação é parcialmente ou inteiramente falsa, pois, em um período de latência cerebral, as memórias sofrem misturas, combinações e recombinações. Na mesma diretriz, Jonathan K. Foster (2011) afirma que a memória, analisada sob a perspectiva do conjunto, aparece como uma reconstrução irregular, com lacunas e imperfeições, do passado localizada no presente.

Um exemplo capaz de ilustrar tais afirmações diz respeito à transformação da memória e da imagem de uma pessoa com o seu falecimento ou a construção e colocação de um busto de bronze, em uma praça, de uma figura pública que cometeu atrocidades durante a sua vida. Esses mecanismos de transformação memorialística, em muitos momentos, permitem que o ser humano viva com mais serenidade e torne a recuperação de memórias mais harmoniosa.

Além disso, ao se analisar a recordação, é importante mencionar o esquecimento, decorrente da saturação dos mecanismos responsáveis (compostos, principalmente, pelo hipocampo) pela formação (feita de forma lenta) e evocação (feita de forma instantânea) das memórias, assim estamos constantemente atualizando as nossas lembranças. Com base no exposto, pode-se dizer que a seleção, a modificação de memórias e o esquecimento atuam como instrumentos de manutenção da convivência social, haja vista que a retenção de tudo o que foi vivido tornaria a nossa existência tão árdua e complexa como a de Funes, o memorioso.

Este texto possui partes da dissertação de Mestrado da Acad. Letícia B. Bortoluzzi e que pode ser lida na íntegra no site da Universidade de Caxias do Sul.

Referências:

1. BORGES, Jorge Luis. Funes, o memorioso. In: ______. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 99-108.

2. FOSTER, Jonathan K. Memória. Tradução Camila Werner. Porto Alegre: L&PM, 2011.

3. IZQUIERDO, Iván. A arte de esquecer: cérebro e memória. 2. ed. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2010.

______. Memória. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

______. Questões sobre memória. São Leopoldo: Unisinos, 2009.

3. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006.

4. LOWENTHAL, David. Como conhecemos o passado? Tradução Lúcia Haddad. Projeto História, São Paulo, n. 17, p. 63-201, dez. 1998.

5. RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.

Autores:
Dr. Fabrício Kleber
Acad. Letícia Baron Bortoluzzi

Publicado originalmente em 2020 na plataforma Vitallogy.