Autores: Dr. Fabrício Kleber e Acad. Valéria Gresczeschen
Foto por SAMANTA SANTY no Unsplash
[...] Que sensação estranha!” disse Alice; “devo estar encolhendo como um telescópio!” [...] ”Agora já estou espichando como o maior telescópio que já existiu! Adeus, pés!” (pois quando olhou para eles, pareciam quase fora do alcance de sua vista, de tão distantes).
- Alice in Wonderland
Nas aventuras de Alice no País das Maravilhas, do livro escrito por Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido como Lewis Carroll, a protagonista Alice experimenta vivências peculiares, ela aumenta ficando enorme mas também fica pequenininha, por exemplo. Se pararmos para pensar, isso é inimaginável na vida real, mas será que é isso mesmo? Quem tem a Síndrome de Alice no País das Maravilhas (SAPM) possui ilusões paroxísticas da imagem corporal, tal como Alice. Vivenciando assim, episódios de distorções da imagem corporal [1]. Neste texto vamos explicar um pouco mais sobre os detalhes desta curiosa síndrome.
A SAPM é uma condição neuropsiquiátrica rara, sendo descrita pela primeira vez por Caro Lippman, em 1952 [1]. No entanto, foi em 1955 que o termo “Síndrome de Alice no País das Maravilhas” foi introduzido por John Todd [1], [2], [3], [4]. Todd descreveu alguns dos sintomas gerais da SAPM: somestésicos, isto é, sentir parte ou todo o corpo maior ou menor do que o normal, sendo associados a ilusões visuais, incluindo perturbação na apreciação visual do tamanho dos objetos, ou seja, macropsia e micropsia (objetos ou outras pessoas parecendo maiores ou menores) e teleopsia e pelopsia (objetos ou outras pessoas aparecendo respectivamente mais longe ou mais perto), metamorfopsia (onde os objectos parecem ter formas anormais) ou distúrbios de consciência, como sentimentos de desrealização, despersonalização, dualidade somatopsíquica (ou seja, a ideia de ser dividido em dois) e alteração no julgamento do tempo [3], [4], [6].
Apesar de rara, a SAPM pode ocorrer em várias condições clínicas, tais como: enxaqueca (sendo a causa mais frequente), epilepsia, doenças infecciosas, tóxicos/fármacos, lesões cerebrais ou patologia psiquiátrica. A infeção pelo vírus Epstein-Barr é a causa infecciosa mais frequente [4], [5]. Como é uma condição neuropsiquiátrica rara, o conhecimento científico sobre a etiologia, epidemiologia, consequências clínicas e psicossociais associadas a SAPM permanece amplamente inexplorado [2].
Existem estudos que discutem o manejo neuropsiquiátrico sintomático com uma ampla gama de abordagens farmacológicas e não farmacológicas, como a estimulação magnética transcraniana. No entanto, necessita-se de mais estudos para compreender as manifestações neuropsiquiátricas exclusivas da SAPM, condições clínicas e fatores associados para o desenvolvimento de intervenções[2].
A SAPM ainda segue desconhecida por muitos profissionais da área da saúde, sendo provavelmente mal diagnosticada devido à falta de critérios, diagnósticos claros e universalmente aceitos. Sendo assim, o diagnóstico, tratamento e prognóstico da SAPM é relativamente limitado.
[1] D.J, Lanska. The Alice-in-Wonderland Syndrome. 2018. Disponível em: https://www.karger.com/Article/Abstract/475722. Acesso em: 22 abr. 2021.
[2] HOSSAIN, Md Mahbub. Alice in Wonderland syndrome (AIWS): a research overview. 2020. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7701374/. Acesso em: 22 abr. 2021.
[3] MASTRIA, Giulio et al. Alice in Wonderland Syndrome: A Clinical and Pathophysiological Review. 2016. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5223006/. Acesso em: 22 abr. 2021.
[4] ROCHA, Ana Paula. SÍNDROME DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS E REATIVAÇÃO DE INFEÇÃO POR EPSTEIN-BARR. 2019. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2019/04/994759/revista551v2-artigo5.pdf. Acesso em: 22 abr. 2021.
[5] BIDIN, Joseph Bruno et al. Síndrome de Alice no País das Maravilhas: “Quem sou eu no mundo? 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0004-282X2019000900672&lng=en&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 22 abr. 2021.
[6] BROOKS, Joseph Bruno Bidin et al. Alice in Wonderland syndrome: “Who in the world am I?”. 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2019000900672&lng=en&nrm=iso&tlng=en. Acesso em: 22 abr. 2021.
Publicado originalmente em 2021 na plataforma Vitallogy.