Neurofisiologia
March 5, 2025
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11 min.

Saúde auditiva e Órgão de Corti: como e por que preservar nossa audição?

Autores: Dr. Fabrício Kleber e Acad. Brenda Pedroso

Saúde auditiva e Órgão de Corti: como e por que preservar nossa audição?

Foto por Franco Antonio Giovanella no Unsplash

É notável que o uso de dispositivos individuais reprodutores de áudio, principalmente smartfones, notebooks e videogames conectados a fones de ouvido, tornou-se comum para a população, ainda mais entre os jovens. Com a pandemia e com o isolamento social, tal uso passou a ser indispensável para várias pessoas, visto que adaptações foram exigidas para a nova situação de homeoffice e aulas EAD. A partir disso, é preciso pensar na saúde auditiva e no conhecimento que temos sobre ela. As mudanças advindas do isolamento social e o uso incorreto ou irresponsável de dispositivos sonoros podem trazer consequências graves e irreversíveis, como a perda auditiva induzida pelo ruído.

Inicialmente, vemos dados de 2015 da Organização Mundial da Saúde indicando que quase metade da população jovem (entre 12 e 35 anos) dos países em desenvolvimento e desenvolvidos se expõem a sons inseguros por meio de aparelhos pessoais (smartfones, videogames) e que 40% desse grupo têm contato com sons não adequados à audição em clubes, baladas, casas de festas e bares. É necessário lembrar, dessa forma, que a OMS define como início de estresse auditivo sons acima de 55dB e que níveis aceitáveis iriam até 85dB por, no máximo, 8 horas seguidas. Além disso, é comum para os usuários de dispositivos sonoros situações que colaboram para o uso inadequado desses aparelhos, por exemplo, ambientes com mais pessoas, com vento, com trânsito próximo, com ruídos do ambiente externo, que os induzem a ouvir sons com volumes muito altos. Também, o tempo de uso, de maneira contínua, com volumes extremos é um fator de risco para uma audição alterada.


Visto isso, a maneira como os jovens usufruem das tecnologias e o seu estilo de vida preocupam especialistas, já que problemas auditivos passaram a ser considerados uma condição de saúde entre essa população. Nessa perspectiva, estudos realizados pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais em 2014 revelam claras diferenças na qualidade auditiva entre usuários e não usuários diários de fones de ouvido. Nesse estudo, um grupo de pacientes foi exposto a testes audiométricos e timpanométricos de controle, de avaliação de desempenho e de comparação entre os grupos previamente classificados. Assim, foram identificados danos à audição, incluindo perda auditiva, entre as pessoas que faziam uso diário de fones de ouvido. Inclusive, há associação entre a perda auditiva induzida por exposição ocupacional e a perda auditiva induzida por música ou por altas pressões sonoras.

Então, o uso irresponsável de dispositivos sonoros pode levar a perda auditiva induzida por ruído.

A Universidade de Michigan, em parceria com a Apple Inc., realizou um estudo no ano de 2020 com voluntários falantes de língua inglesa. Tais participantes optaram por compartilhar seus dados sobre uso de fones de ouvido e dados dos sons ambientes que habitavam através de seus Iphones e de seus Apple Watches. Durante os períodos determinados de isolamento social, por 8 horas diárias, esses dados eram monitorados e comparados com dados aproximados de períodos anteriores à pandemia (maiores informações sobre os métodos utilizados em https://sph.umich.edu/applehearingstudy/). Como resultado, quase a totalidade dos participantes reduziu a sua exposição a sons pouco seguros, com os níveis sonoros abaixo dos 75dB de sexta a domingo, principalmente. Houve, por fim, redução de aproximadamente 3 dB no total de sons nos ambientes pessoais desse grupo devido ao distanciamento social, o que indica menores riscos de desenvolvimento da perda auditiva induzida por ruído.

Mas vamos entender um pouco melhor a relação do som com a nossa audição:

O nosso órgão auditivo se relaciona e depende diretamente do som, uma onda mecânica que surge a partir da vibração das moléculas do meio. Sua intensidade se dá em decibéis (dB) e sua frequência em hertz (Hz) e o ouvido humano suporta ondas entre 0 e 140 dB e entre 20 e 20kHz. Tal vibração, nesse caso, é captada pelo nosso ouvido externo e faz vibrar a membrana timpânica que, por sua vez, vibra os ossículos do ouvido presentes no ouvido médio. A partir daqui a onda é introduzida ao ouvido interno, onde está presente a Cóclea. Essa cavidade óssea em forma de caracol tem como principal elemento o Órgão de Corti.

As vibrações, portanto, vibram a perilinfa nos canalículos cocleares e passam para a endolinfa no canal coclear, onde atingem, finalmente, o órgão de Corti. Tal órgão está situado sobre uma membrana basal e possui dois tipos principais de células ciliadas, as externas e as internas. Dessa maneira, a vibração da endolinfa é transmitida àquela membrana basal e atinge, em seguida, as células externas. Esse tipo celular amplifica a energia sonora recebida e a difunde às células internas, que codificam o estímulo mecânico em químico, possibilitando a sensibilização das terminações nervosas locais do nervo coclear.


Segundo a OMS, a perda auditiva será considerada quando houver insuficiência auditiva com sons acima de 40dB em adultos. Em encontro a isso, a Associação Brasileira de Normas Técnicas propõe que ruídos são um conjunto de sons com frequências diferentes que destoam àquelas que podem ser distinguidas pela nossa audição. Por consequência, a perda auditiva pode ser induzida por ruído e pode ocorrer pelo descolamento do órgão de Corti da sua membrana basal (causado pela intensa vibração de uma onda acima dos 140dB) ou pela exposição prolongada, por no mínimo 10 anos, a sons intensos (acima de 85dB) que vão gradualmente lesando as células ciliadas do órgão de Corti. Em mamíferos, as células ciliadas do órgão auditivo não se regeneram.

Essa patologia terá sua fisiologia associada a produção de espécies reativas de oxigênio (estresse oxidativo)pelas células ciliadas em resposta ás intensas e contínuas vibrações, ao dano mecânico com perda de estereocílios e perda de função e a destruição das terminações nervosas cocleares recorrente da exotoxicidade (excesso glutamato) induzida pelas ondas sonoras intensas.

Os sintomas dessa condição auditiva incluem, de início, acufenos curtos (zumbido ou tinido) e desvio temporário do limiar auditivo que surgem logo após à exposição a sons prejudiciais e, geralmente, desaparecem após algumas horas de repouso. Caso haja contato contínuo com sons extremos, os acufenos passam a ser crônicos (meses ou anos) e as perdas de limiar auditivo se tornam definitivas. Isso prejudica a compreensão da fala e, avançando a perda auditiva induzida por ruído, há danos à qualidade de vida do paciente relacionados ao desenvolvimento de distúrbios do sono, de ansiedade, de depressão, da redução da capacidade de comunicação e de concentração. É válido ressaltar ainda que não há tratamento ou cura específicas à essa deficiência, sendo viável apenas reduzir o avanço da doença ou oferecer o uso de aparelhos auditivos, se adequado. Dessa forma, nota-se a relevância da divulgação desse tema para incentivar medidas preventivas; esse tema e essa condição são pouco conhecidos ou ignorados por boa parte da população.

Por conseguinte, deve-se conhecer os fatores de risco relacionados ao uso incorreto e irresponsável de aparelhos reprodutores de sons, como smartfones, notebooks, videogames, associados com fones de ouvidos para evitar os possíveis danos à audição. Os principais aspectos que agravam a qualidade da audição, nesse sentido, envolvem maior acesso aos dispositivos e a fones de ouvidos, nível socioeconômico, volume do som, duração diária, ruídos de fundo, tipos de fone (sendo o tipo in-the-ear o mais prejudicial), o estilo da música ouvida, idade, prática esportiva, sexo, cultura e, por fim, tabaco.

É preciso, dessa forma, prestar atenção a esses fatores de risco; sabe-se que o uso de dispositivos auditivos por mais de uma hora diariamente, durante quatro ou mais anos, com volume selecionado acima de 50% do máximo disponível quadriplica as chances do desenvolvimento de perda auditiva permanente induzida por ruído.

Para evitar esse dano a audição e para mantê-la saudável é necessário seguir algumas orientações definidas pela OMS. Elas são dicas simples, fáceis de serem realizadas e incluem:

- Manter o volume baixo;

- Usar earbuds cuidadosamente encaixados, o que possibilita ouvir com menor volume;

- Uso de fones isolantes de ruídos, o que também possibilita ouvir com menor volume;

- Monitorar, via aplicativos e internet, a exposição a ruídos em seu ambiente;

- Limitar o tempo gasto em atividades com sons altos;

- Afastar-se de sons altos;

- Usar earplugs (isolantes) corretamente;

- Respeitar níveis aceitáveis de áudio (geralmente indicado pelos aparelhos);

- Check-ups regulares da saúde auditiva;

- Buscar informações e orientações corretas.

Essas indicações podem melhorar a qualidade de vida da população se seguidas corretamente e evitar, futuramente, o aumento da recorrência de perda auditiva induzida por ruído. Principalmente, na atual realidade de pandemia e de isolamento social, em que o uso de fones de ouvidos se tornou ainda mais recorrente.

Nessa lógica, a menor exposição à ruídos em baladas, clubes, festas, colabora para a manutenção da saúde auditiva dos jovens, substancialmente, o que já é um ótimo sinal. Para continuar com a qualidade auditiva e de vida desses grupos é preciso disseminar as orientações da OMS e suas estratégias de prevenção contra a perda auditiva induzida por ruído. Por ser um assunto ainda desconhecido ou, por muitas vezes, ignorado, a saúde auditiva não recebe o destaque necessário, infelizmente, mas podemos lembrar e cuidar muito bem desse sentido neurológico.

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10. Soto J, Alsar MJ. Hearing loss due to recreational exposure to loud sounds(a review). N Engl J Med. WHO Press, World Health Organization, 20 Avenue Appia, 1211 Geneva 27, Switzerland 1994;330(10):715–6.

11. Costanzo SL, Sataloff RT, Johns MM, Kost KM. Fisiologia. 6 ed. Guanabara Koogan; 2015.

Autores:
Dr. Fabrício Kleber
Acad. Brenda Pedroso

Publicado originalmente em 2021 na plataforma Vitallogy.