Autores: Dr. Fabrício Kleber e Acad. Letícia Boff
Foto por Francisco Gonzalez no Unsplash
De acordo com a Associação Internacional da Dor, a dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável que é associada ou descrita em termos de lesões teciduais. Ela atua como um mecanismo e proteção do nosso organismo, pois permite que o indivíduo reaja à um estimulo nocivo para evitar uma injúria tecidual. Na pele e em alguns órgãos internos, os receptores para dor são responsáveis por avisar o indivíduo sobre a presença de um estímulo nocivo, sendo um importante mecanismo de defesa do nosso corpo. Neste texto vamos revisar alguns detalhes básicos sobre a fisiologia da percepção dolorosa.
Existem duas formas principais de transmissão dos sinais nociceptivos, um é a via de dor rápida (também chamada de dor pontual, “elétrica”, “em agulhada”) que é oriunda de um estímulo doloroso agudo, como por exemplo quando encostamos em algo muito quente. Esse tipo de dor é bem pontual, e se localiza exatamente no local lesado, alertando a pessoa rapidamente sobre a situação danosa que está ocorrendo no corpo. Já a dor lenta, conhecida também como dor crônica ou persistente, ocorre tanto na pele quanto em órgãos mais profundos, e pode causar uma sensação de dor insuportável e tende a aumentar sua intensidade de forma gradual. Esse tipo de dor é menos localizado, como se fosse algo mais “espalhado” e difuso.
A dor rápida e a dor lenta diferenciam-se também no tipo de estímulo que as desencadeia. A dor pontual é desencadeada por estímulo mecânico (pressões exercidas sobre a pele) e estímulos térmicos (calor e frio). Já a dor crônica é manifestada por um estímulo mecânico, térmico e químico, através de neurotransmissores produzidos e liberados pelos neurônios. Uma das substâncias que estimulam este tipo químico da dor é a bradicinina, um mediador químico que participa na iniciação e manutenção da dor. Ela induz a dor de uma forma mais acentuada e pode ser considerada a principal responsável pela indução da dor após a ocorrência de um dano tecidual.
A dor rápida é transmitida para a medula espinhal através de fibras do tipo Aδ, que são altamente mielinizadas (a mielina é uma substância lipídica ou gordurosa que envolve o axônio de alguns neurônios e que acelera a condução dos impulsos nervosos) e a propagação da dor lenta para a medula é feita por fibras do tipo C, que não são mielinizadas, e portanto, são transmitidas de forma mais lenta. A transmissão do sinal do local lesado até o sistema nervoso central ocorre por duas vias diferentes:
A figura demostra a transmissão dos sinais da dor pela via de dor lenta e via de dor rápida para o tronco cerebral, tálamo e córtex cerebral.
Para facilitar o entendimento de como acontecem as sinapses neste processo é importante ressaltar que todo o processo de transmissão ocorre pelas vias sensoriais ascendentes da medula, que são as vias que levam a informação da periferia até o cérebro. Primeiramente, o estímulo é transmitido da periferia (seja a pele ou algum órgão) até o corno posterior da medula por um único neurônio, lá ocorre uma sinapse com o segundo neurônio da via, que ascende até o tálamo. Depois disso, no tálamo, ocorre a sinapse com o terceiro neurônio que leva o estímulo até o córtex, onde ocorre a percepção do estímulo doloroso.
A sinapse é o ponto de encontro entre um neurônio e o neurônio seguinte, e assim, transmitem sinais de um para o outro. As sinapses químicas são mais comumente usadas para a transmissão de sinais no sistema nervoso central. O primeiro neurônio liberar pela porção final do axônio um neurotransmissor (substância química) que irá atuar em receptores presentes no neurônio seguinte, promovendo inibição ou ativação do neurônio seguinte. Assim, há sinapses excitatórias que liberam neurotransmissores que estimulam o neurônio pós-sináptico e sinapses inibitórias que secretam neurotransmissores que inibem o segundo neurônio envolvido no processo.
1. Guyton & Hall - Tratado de Fisiologia Médica 13. ed.
Publicado originalmente em 2020 na plataforma Vitallogy.