Autores: Dr. Fabrício Kleber e Acad. Valéria Gresczeschen
Foto por Tara Raye no Unsplash
O sono, para muitos é um tempo perdido, visto como uma obrigação diária que quando as pressões da vida cotidiana aumentam é deixado de lado. Para outros o sono é indispensável, prazeroso e um descanso diário independente dos problemas vividos (ALMONDES, 2017). Apesar do ponto de vista, o sono permanece sendo algo intrigante para a maioria das pessoas e de fato, um sono normal é fundamental para a fisiologia saudável e função corporal (TROYNIKOV et al., 2018). Animais com privação completa do sono morrem depois de alguns dias. Assim, é evidente que o sono possui uma grande importância para o nosso corpo mas também para o nosso cérebro! Mas você sabia que existem estágios bem definidos no nosso sono e que estes estágios não são caracterizados por inatividade cerebral? Neste texto vamos revisar alguns destes pontos interessantes.
O ser humano passa cerca de um terço da sua vida dormindo. Além disso, no início de nossas vidas o sono parece ter uma importância ainda maior pois os recém nascidos dormem por grande parte do dia. Os estágios do sono também possuem proporções diferentes nos bebês, onde o sono REM corresponde por grande parte de todo o sono. Já no idoso o sono REM está presente em apenas uma pequena porção da noite. Assim, ganha força a idéia de que o sono tenha uma importância no aprendizado e na manutenção de um ambiente favorável para a atividade normal cerebral, e não somente o descanso da mente e do corpo.
No entanto, o que nem todo mundo sabe é que o nosso sono possui estágios bem definidos. Cada um destes estágios possui características específicas no que diz respeito a atividade cerebral quando analisamos através do Eletroencefalograma (EEG). Na década de 50, quando os primeiros cientistas começaram a analisar a estrutura do sono através do EEG, fato que causou surpresa foi a evidência que o sono não era um período de inatividade cerebral. Na verdade o que os cientistas observaram foi que o sono seguiu ciclos ao longo da noite, com padrões de atividade elétrica cerebral no EEG que se repetiam cerca de 4-5x por noite. Desta forma, foi possível identificarmos os estágios do sono.
Além do padrão elétrico cerebral característico, dependendo do estágio do sono, foi possível identificar que outras alterações fisiológicas também ocorriam de forma cíclica. A ocorrência de inatividade ou bloqueio da atividade muscular (alteração do tônus muscular), movimentos oculares e até ereção peniana foram identificados em estágios específicos do sono. Sendo assim, os cientistas identificaram dois períodos ou tipos de sono bem definidos e utilizaram a presença ou não de movimentos oculares para diferenciá-los: sono com movimentos oculares rápidos (sono REM - do inglês "Rapid Eye Movements") e o sono sem movimentos oculares rápidos (sono NREM). Já o sono NREM é dividido em 4 estágios.
Um ciclo de sono normal começa pelo sono NREM com um curto período de Estágio 1 (sonolência), progredindo lentamente para os estágios mais profundos do sono NREM ou Estágio 2, 3 e 4. Após o sono NREM temos a chegada da fase de sono REM. (FERNANDES, 2006), (MAGALHÃES; MATARUNA, 2007), (COLTEN; ALTEVOGT, 2006), (ALMONDES, 2017). De forma muito interessante a medida que o sono NREM vai aprofundando observamos um lentificação das ondas cerebrais e o aparecimento de grafoelementos ou atividades elétricas cerebrais caracteríticas e que são normais. No entanto, de forma oposta do que poderíamos imaginar, o estágio do sono REM volta a ter uma atividade elétrica mais rápida com ondas que muitas vezes lembram a atividade elétrica vista quando a pessoa está acordada. É no sono REM que temos a ocorrência da experiência dos sonhos, perda do controle muscular e ocorrência dos movimentos oculares rápidos. O sono REM também está relacionado com o processo de consolidação ou fixação de novas memórias. (COLTEN; ALTEVOGT, 2006).
Estágio 1:
É um estágio em que o indivíduo apresenta um nível de sonolência superficial e fugaz no qual pode ser despertado com facilidade. Além disso, os olhos movem-se muito lentamente e a atividade muscular torna-se gradualmente mais lenta. Este estágio geralmente dura 1 a 7 minutos no ciclo inicial, constituindo 2% a 5% do sono total (FERNANDES, 2006), (MAGALHÃES; MATARUNA, 2007), (COLTEN; ALTEVOGT, 2006), (ALMONDES, 2017).
Estágio 2:
Um indivíduo no estágio 2 requer estímulos mais intensos do que no estágio 1 para despertar. Nessa etapa surgem grafoelementos característicos do sono como os fusos do sono (surtos de atividade rítmica de 12-14 Hz) e os complexos K (ondas lentas bifásicas de alta amplitude, acompanhadas, ou não, de fusos do sono). A hipótese é que os fusos do sono são importantes para a consolidação da memória. Essa fase dura aproximadamente 10 a 25 minutos no ciclo inicial e se alonga a cada ciclo sucessivo, eventualmente constituindo entre 45% a 55% do episódio total de sono (FERNANDES, 2006), (MAGALHÃES; MATARUNA, 2007), (COLTEN; ALTEVOGT, 2006), (ALMONDES, 2017).
Estágio 3 e 4:
Os estágios 3 e 4 compõem o chamado sono delta ou de ondas lentas. É muito difícil acordar alguém durante os estágios 3 e 4. O estágio 3 dura apenas alguns minutos e constitui cerca de 3% a 8% do sono (COLTEN; ALTEVOGT, 2006). O último estágio NREM é o estágio 4, que dura aproximadamente 20 a 40 minutos no primeiro ciclo e representa cerca de 10% a 15% do sono. Não há movimento ocular ou atividade muscular nestes estágios. Pessoas acordadas durante o sono delta não se orientam imediatamente e, frequentemente, sentem-se "grogues" e desorientadas por alguns segundos depois que despertam (FERNANDES, 2006), (MAGALHÃES; MATARUNA, 2007), (ALMONDES, 2017).
O sono REM é definido pela presença de atividade de ondas cerebrais dessincronizadas (baixa voltagem, frequência mista), atonia muscular ou perda do controle muscular e surtos de movimentos oculares rápidos (MAGALHÃES; MATARUNA, 2007). É um estágio profundo de difícil despertar e nesta fase encontram-se as chamadas ondas em dente de serra, ou seja, atividade rítmica na faixa delta a teta (ondas cerebrais) de aspecto serrilhado (FERNANDES, 2006). Neste estágio temos a atonia muscular ou o bloqueio do controle muscular, o que permite que tenhamos sonhos vívidos sem atuar o próprio sonho. Inclusive, quando não temos a atonia muscular nesta fase do sono observamos o surgimento de comportamentos bizarros onde o pacientes faz movimentos de acordo com o sonho, o que chamados de Distúrbio Comportamental do Sono REM (RBD). Quem nunca escutou histórias de pessoas que deram socos ou chutes durante o sonho! Obviamente que nestes pacientes isto ocorre de forma rotineira. Além disso, os olhos movimentam-se em várias direções, em surtos rápidos, a intervalos regulares e, em homens, ocorre ereção peniana.
Quando pessoas são despertadas durante o sono REM, frequentemente descrevem histórias bizarras e ilógicas que compõem os seus sonhos (MAGALHÃES; MATARUNA, 2007). Aproximadamente 80% das recordações vívidas dos sonhos resultam do despertar desse estágio do sono (COLTEN; ALTEVOGT, 2006). Como citado previamente este estágio do sono tem sido estudado de forma ampla na neurociência pois parece estar relacionado com a consolidação de novas memórias.
Ao longo de um período de sono, o sono NREM e REM alternam ciclicamente. A função das alternâncias entre esses dois tipos de sono ainda não é compreendida, mas ciclos irregulares e/ou ausência de fases do sono estão associadas a distúrbios do sono. O mais interessante é observarmos que o sono não é uma fase inerte do ponto de vista cerebral! Podemos estar parados do ponto de vista muscular mas dentro das nossas cabeças temos uma tempestade elétrica ocorrendo em algumas fases do nosso sono. A Neurociência vem estudando e aprendendo cada vez mais sobre a importância do sono e, sem dúvida, o sono vai ganhar cada vez mais importância no contexto de doenças e de rendimento humano.
"A prática não faz a perfeição. É a prática, seguida de uma noite de sono, que leva a perfeição."
Matthew Walker, Why we sleep.
1. Porque nós dormimos. Mathew Walker, 2018.
Livro escrito por um neurocientista que dedicou a sua vida ao estudo do sono.
1. COLTEN, Harvey; ALTEVOGT, Bruce. Sleep Disorders and Sleep Deprivation. 2006. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK19960/. Acesso em: 17 ago. 2020.
2. FERNANDES, Regina Maria França. O sono normal. 2006. Disponível em: http://revista.fmrp.usp.br/2006/vol39n2/1_o_sono_normal1.pdf. Acesso em: 17 ago. 2020.
3. TROYNIKOV, Olga et al. Sleep environments and sleep physiology: A review. 2018. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0306456518301335. Acesso em: 17 ago. 2020.
4. MAGALHÃES, Flávio; MATARUNA, José. Sono. 2007. Disponível em: http://books.scielo.org/id/3qp89/pdf/jansen-9788575413364-09.pdf. Acesso em: 17 ago. 2020.
5. ALMONDES, Kate Moraes de. Neuropsicologia do sono: aspectos teóricos e clínicos. São Paulo: Pearson Clinical Brasil, 2017.
Publicado originalmente em 2020 na plataforma Vitallogy.