Coluna
March 3, 2025
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Novas possibilidades para o tratamento de Lesões da Medula Espinhal

Autores: Dr. Fabrício Kleber e Dr. Lucas Henriques Viscardi‍

Novas possibilidades para o tratamento de Lesões da Medula Espinhal

Foto por Casper Nichols em Unsplash.

Introdução ao tema:

Inúmeros são os casos de pessoas que devido à um acidente de trânsito, fraturas vertebrais, traumas esportivos, ou mesmo a assaltos violentos, como após um disparo de uma arma, são atingidos na coluna levando a uma série de lesões na medula espinhal.

Nossa coluna vertebral é composta por 33 vértebras, sendo elas sete cervicais, doze torácicas, cinco lombares, cinco sacrais e quatro que formam o cóccix. Elas, além de sustentar nosso esqueleto axial, também formam uma estrutura de proteção para a passagem da medula, o canal medular. Da medula espinhal ramificam-se terminações nervosas que permitem o estímulo e controle dos nossos músculos. Dessa forma, pessoas que lesionam essas estruturas e acabam atingindo a medula, dependendo dos danos na região, há um rompimento da comunicação do cérebro até o ponto atingido, impossibilitando a movimentação de certos membros.

Lesões abaixo da sexta vértebra cervical (C6), podem deixar o indivíduo paraplégico (sem movimento de ambos os membros inferiores), já lesões acima de C6 podem deixá-lo tetraplégico (sem o movimento de ambos os braços e pernas), enquanto lesões acima da quarta vértebra cervical (C4) podem interromper o controle da respiração, levando à morte.

Os danos na medula espinhal normalmente acarretam sequelas permanentes, visto que há uma falha na regeneração dos axônios (porção importante na comunicação entre neurônios), responsáveis pela condução dos impulsos elétricos. Essa falha se dá tanto pelo ambiente inibitório para o crescimento neuronal criado pela mielina que circunda os axônios, protegendo-os, bem como pela cicatriz glial formada após a lesão. A cicatriz glial é uma forma de fechar a região lesionada, evitando a entrada de patógenos. Felizmente, os avanços na ciência estão trazendo novas possibilidades de tratamento para algo que antes parecia impossível.


Novas Descobertas:

A equipe de cientistas da Ruhr-University Bochum (RUB) da Alemanha, publicou um artigo na revista Nature Communications relatando seus experimentos em camundongos e uma terapia de reparação de nervos da medula espinhal completamente rompidos nesses animais.

A responsável por esse reparo é a citocina hiperinterleucina-6, uma interleucina modificada geneticamente que estimula a sinalização JAK/STAT3 (um eixo comunicante de diferenciações celulares, morte celular, sistema imune e outras funções), levando à regeneração dos axônios. Essa proteína modificada na subunidade do receptor alfa permite a interação direta com uma outra subunidade da glicoproteína 130, uma proteína expressa de forma abundante em todos os neurônios. Dessa forma ela ativa a cascata de efeitos pró-regenerativos que nossas proteínas de forma natural não conseguem.

Trabalhos anteriores já haviam ativado tal eixo e com sucesso estimularam a regeneração de nervos ópticos (envolvido com a visão). A terapia se deu através de uma única aplicação unilateral de um vírus carregando o gene de interesse, inserindo assim o gene modificado nas células do cérebro na região do córtex sensório-motor dos camundongos, uma técnica de engenharia genética. Após isso, as células neuronais carregando essa informação produzem essa proteína, responsável pela regeneração tanto das regiões córtico-espinhais como das fibras da rafe-espinhais. O trato cortico-espinhal é responsável por controlar os movimentos voluntários finos e, infelizmente, é o mais resistente para regeneração. Além disso, o método também é eficaz na regeneração de axônios serotonérgicos (5-HT-positivos) do trato rafe-espinhais, muito relevantes para recuperações locomotoras, já que fazem conexões diretas com motoneurônios, e que são de difícil acesso para certas intervenções pós-traumáticas.

Os  camundongos foram readquirindo seu andar da primeira até a oitava semana, sendo curados da paraplegia total e voltando a andar na oitava semana. Os pesquisadores também estudaram alguns camundongos previamente modificados com a inativação (knockout) do gene fosfatase homóloga à tensina, conhecido como PTEN. Esse gene previamente mostrou resultados em regenerar as fibras cortico-espinhais, porém sem melhorar o desempenho motor. Agora, em conjunto com a terapia desenvolvida pelos autores, os camundongos inativados para esse gene e com a terapia da hiperinterleucina-6 demonstraram resultados ainda melhores, trazendo a tona possibilidades de tratamentos conjuntos.

Limites do Estudo e Conclusão:

O limite do estudo atual é que esse potencial de reparo parece se limitar a uma terapia que ocorra imediatamente após a lesão medular. Ou seja, a pesquisa não obteve sucesso ainda em reparar nervos danificados de longo prazo. Outras perguntas também trazem dúvida se a terapia atingiu unicamente os neurônios alvos e se outras fibras que poderiam ter sido beneficiadas com a terapia, como as do trato rubroespinhal, também não teriam sido responsáveis por esses benefícios locomotores. Ainda sim, é inegável, que esse foi um passo gigantesco para uma futura terapia em pessoas lesionadas pelos mais diversos acidentes e mesmo, se os limities do estudo forem mais além, em casos de má formação. Vale ressaltar que trata-se de um estudo experimental com camundongos e não humanos, ou seja, não podemos inferir diretamente que teremos os mesmos resultados positivos em humanos. Diversos estudos em animais não conseguiram demonstrar o mesmo efeito em humanos em outras áreas da Medicina. No entanto, os grandes avanços nos tratamentos médicos normalmente iniciando com resultados positivos em estudos com animais. Vamos aguardar com otimismo os próximos resultados destes e outros cientistas importantes.

Referências:

1. CHEN, X. M. et al. Effect of the JAK2/STAT3 signaling pathway on nerve cell apoptosis in rats with white matter injury. Eur Rev Med Pharmacol Sci, v. 23, n. 1, p. 321-327, 2019.

2. LEIBINGER, Marco et al. Transneuronal delivery of hyper-interleukin-6 enables functional recovery after severe spinal cord injury in mice. Nature communications, v. 12, n. 1, p. 1-14, 2021.

3. LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios. Conceitos fundamentais de neurociência, v. 2, p. 631-639, 2010.

https://www.genecards.org/cgi-bin/carddisp.pl?gene=PTEN

https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/traumas-na-coluna-entrevista/

https://canaltech.com.br/saude/cientistas-alemaes-conseguem-fazer-com-que-ratos-paraliticos-voltem-a-andar-177713/?fbclid=IwAR2iOoDv5WvAq7u1iXi7Yu6Zy9p9FgwIprcxqIAzSWvEtI90JQRupoTFyOs

Autores:
Dr. Fabrício Kleber
Dr. Lucas Henriques Viscardi

Publicado originalmente em 2021 na plataforma Vitallogy.