História
March 5, 2025
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História da Neurologia: Dr. Joseph Babinski e o Reflexo Cutâneo-plantar

Autores: Dr. Fabrício Kleber e Acad. João Pedro Einsfeld Britz

História da Neurologia: Dr. Joseph Babinski e o Reflexo Cutâneo-plantar

Foto por Cristian Newman no Unsplash

Apesar de inúmeros sinais clínicos semiológicos terem sidos descritos nos últimos séculos, possivelmente nenhum deles se compara ao descrito por Joseph Babinski. A demonstração da extensão do hálux ao se estimular a face lateral do pé é aceita universalmente como um sinal incontestável de lesão do trato corticoespinhal. Joseph Juan François Félix Babinski é um dos principais nomes na história da neurologia mundial. Seu interesse em entender a fisiopatologia das doenças do sistema nervoso, pouco compreendida ainda no século 19, o tornou um símbolo da semiologia neurológica.

Dados biográficos:

Nascido em Paris no dia 17 de novembro de 1857, seus pais eram de origem polonesa, e fugiram para a França devido as difíceis condições de vida na Polônia na época. Em 1875, aos 18 anos, ingressou no curso de medicina da Faculdade de Paris, e logo se mostrou ser um grande observador clínico, chamando a atenção do famoso médico Jean-Martin Charcot, que o convidou para fazer parte de sua equipe no Hospital Salpêtrière, se tornando um de seus alunos favoritos, junto de outros futuros nomes da neurologia, como Henri Parinaud, Georges de la Tourette e Édouard Brissaud, e logo demonstrou interesse pela fisiopatologia das doenças neurológicas. Seu interesse pela pesquisa médica era evidente, e aos 27 anos já tinha 12 importantes artigos publicados, focados principalmente em temas de neurologia e histologia. Sigmund Freud, neurologista e criador da psicanálise, também foi aluno de Charcot, e descreveu Babinski como sendo “o pupilo favorito do Mâitre”. Apesar disso Babinski encontrou dificuldades posteriormente para entrar no mundo acadêmico como professor. No entanto, a sua contribuição para a ciência e a Neurologia mundial são atemporais.

Babinski estudou patologia, fisiologia, e medicina interna como parte de seu estágio, e posteriormente decidiu fazer a residência de neurologia. No ano de 1885 recebeu o título de médico com sua tese sobre a esclerose múltipla, com o título “Estudo anatômico e clínico da esclerose múltipla”. Ele era descrito como um homem alto e elegante, sendo uma pessoa quieta e modesta. Seus exames neurológicos eram meticulosos e pertinentes, e não raramente duravam horas.

O escritor francês André Breton, fundador do movimento surrealista, que estudou medicina e foi aluno de Babinski, escreveu que "ele fazia a inspeção de seus pacientes de forma implacável, ao ponto de que aquilo era muito mais que um mero exame físico. De vez em quando ele faria um comentário, e sem abaixar seu martelo neurológico, se envolvia completamente no exame”. Babinski faleceu de pneumonia em 29 de outubro de 1932, aos 74 anos, vivendo o suficiente para ver seus estudos serem reconhecidos mundialmente.

O reflexo cutâneo-plantar:

Na década de 1880, Charcot realizava um grande estudo sobre a histeria, e com o auxílio de Babinski testava todos os dermátomos de seus pacientes para analisar a sensibilidade exteroceptiva. Foi a partir desse estudo que Babinski observou que, em pacientes com lesão medular, o estímulo da planta do pé fazia com que houvesse uma hiperextensão dos dedos, ao invés do movimento normal de flexão. Esse fenômeno o despertou uma grande curiosidade, e suas observações foram apresentadas em 1896, em um encontro da “Société de Biologie” de Paris, em um artigo de apenas 28 linhas.

Em 1898 ele descreveu melhor suas observações em uma publicação denominada “Du phénomène des orteils et de sa valeur sémiologique”, dessa vez na revista “Semaine Medicale”, apresentando casos de paciente hemiplégicos, envenenados por estricnina e com epilepsia Jacksoniana. Babinski concluiu que o sinal era indicativo de lesão do trato piramidal, ou corticoespinhal. O trato piramidal é a via axonal responsável pelos movimentos voluntários, que conecta o córtex motor cerebral ao neurônio inferior da medula para que haja a contração muscular. Babinski observou que o reflexo ocorre também em recém nascidos hígidos, e sua presença nesses casos não indica lesão no trato piramidal. O teste do reflexo cutâneo-plantar foi introduzido no exame neurológico de rotina apenas décadas depois por dois neurologistas alemães, Carl Westphal e Wilhelm Erb, ganhando o epônimo de sinal de Babinski.

Um estudo recente investigou a acurácia do reflexo de Babinski, chegando a conclusão de que é um sinal de alta especificidade (99%), mas baixa sensibilidade (51%). Tais dados mostram como o exame foi importante para identificar lesões no trato piramidal antes da existência dos exames de imagem, pois aqueles pacientes que tinham o sinal de Babinski muito provavelmente tinham uma afecção neurológica, enquanto aqueles que não o tinham deviam continuar a ser investigados.

Considerações finais:

Grande parte das descobertas de Babinski se deve ao seu entusiasmo pela neurologia e por buscar entender a fisiopatologia dos sinais neurológicos. Suas contribuições vão de encontro aos ideais da escola francesa de neurologia, que, impulsionados por Charcot, tinham um grande enfoque na semiologia dos sintomas, e não apenas nas doenças em si, tornando a avaliação do sistema nervoso mais acessível e possibilitando um diagnóstico topográfico mais preciso. O fato de ter vivido em uma época em que os métodos de diagnóstico eram escassos e o sistema nervoso pouco compreendido torna seus feitos ainda mais impressionantes.

É incontestável a importância de Joseph Babinski para a semiologia neurológica, traduzida pela forma dedicada e minuciosa com que executava os exames de seus pacientes. O atualmente chamado sinal de Babinski revela o quanto a sua curiosidade científica estava a serviço de procurar respostas às alterações que encontrava durante longos e completos exames neurológicos. Um legado para a medicina.

Referências:

1. Mehndiratta et al.: Babinski the great: Failure did not deter him, Indian Academy of Neurology, 2014

2. J. Haan et al, Neurology and surrealism: Breton and Babinski, Brain, 2012

3. Philippon et al, Joseph Babinski: A Biography, New England Jour. of Medicine , 2009

4. Janusz H. Skalski, Joseph J. F. F. Babinski (1857–1932), Journal of Neurology, 2007

5. Arquivos da sociedade de biologia de Paris, 1896

6. Accuracy of the Babinski sing in the identification of pyramidal tract dysfunctions, Jaramillo et al, Jornal of the Neurological Sciences, 2014

7. J-J. Chen et al, Anton–Babinski syndrome in an old patient: a case report and literature review, Psychogeriatrics, 2014

Autores:
Dr. Fabrício Kleber
Acad. João Pedro Einsfeld Britz

Publicado originalmente em 2020 na plataforma Vitallogy.