História
March 3, 2025
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História da Neurologia: Carl Wernicke e o estudo das afasias

Autores: Dr. Fabrício Kleber e Dr. João Pedro Einsfeld Britz

História da Neurologia: Carl Wernicke e o estudo das afasias

Foto por Daniel Sandvik no Unsplash

A linguagem é uma função exclusiva do córtex cerebral, sendo formada em diversos locais do nosso cérebro, especialmente no hemisfério dominante. Atualmente, sabemos que as principais áreas da linguagem são a área de Broca, que é a área de articulação da fala, e a área de Wernicke, que é o local de compreensão da linguagem.

A palavra “afasia” vem do grego aphasia, e significa “enfraquecimento ou perda da faculdade de transmissão ou compreensão das ideias em qualquer de suas formas, sem lesão dos órgãos vocais." Como a afasia é um distúrbio da linguagem, e não um déficit sensorial ou motor, tanto a linguagem falada quanto a escrita são afetadas.


Lesões na área de Wernicke são responsáveis por causar a famosa afasia de Wernicke, ou afasia sensorial. Ela ocorre por lesões nos giros angular, supra-marginal ou temporal superior do hemisfério dominante. O paciente com afasia de Wernicke tipicamente tem uma fala fluente, mas o discurso é caracterizado por erros parafásicos, com escolha incorreta de palavras e mistura de sílabas, sendo referido como uma “salada de palavras”. O paciente tem dificuldade de compreender o que é dito a ele e não consegue repetir.

No estudo das afasias, Carl Wernicke foi sem dúvida um dos principais nomes da área, contribuindo de forma substancial para o entendimento não só das afasias no contexto clínico, mas também sobre a fisiologia da linguagem e sua localização no córtex cerebral.

Dados bibliográficos:

Carl Wernicke nasceu no ano de 1848, na cidade de Tarnowitz, que na época pertencia à Prússia, e atualmente se localiza na Polônia. Aos 23 anos formou-se em medicina pela Universidade de Breslau, onde foi assistente do psiquiatra Neumann durante quatro anos, e posteriormente de Theodor Meynert, em Viena, onde praticou a neuroanatomia. Dessa forma, o primeiro contato de Wernicke com a prática da medicina foi com os doentes mentais, o que direcionou toda sua carreira profissional.

De volta a Breslau, aproveitando a experiência que adquiriu com grandes mestres da psiquiatria, Carl Wernicke passou a se dedicar aos estudos dos distúrbios da linguagem, produzindo em 1874 o seu grande trabalho intitulado der aphasische symptomenkomplex: eine psychologische auf anatomischer basis” ("O complexo afásico: uma explicação psicológica com uma base anatômica"), no qual ele descreve as características não apenas da famosa afasia de Wernicke, mas de diversas outras formas de afasia. Seu trabalho é dividido em três partes, sendo que na primeira parte do livro ele introduz as funções psicológicas do cérebro e localiza essas funções no córtex cerebral, para então, na segunda parte, aplicar esses princípios no funcionamento dos distúrbios da linguagem e da fala. Na terceira e última parte, Wernicke ilustra a sua teoria com casos clínicos.

Posteriormente, Wernicke se tornou professor na universidade de Breslau em 1885, assumindo o lugar de seu mestre Heinrich Neumann, quando passou a ter um contato crescente com pacientes com doenças neurológicas e psiquiátricas. Dessa forma, desenvolveu de forma mais aprofundada sua tese acerca dos princípios localizatórios nas doenças do sistema nervoso, ou seja, que determinados sintomas eram causados por danos em áreas específicas do cérebro, na qual as afasias se encaixavam.

Em seu trabalho, Wernicke explica que cada palavra evoca no nosso cérebro uma imagem motora e auditiva. A palavra falada evoca uma percepção auditiva, que induz uma imagem auditiva da palavra, que então evoca o significado dessa palavra, através de fibras de associação proveniente de outras regiões corticais. Esse processo é realizado na região do giro temporal superior, no lado dominante do cérebro, e lesões nesse local causariam uma disfunção no processo, caracterizando a afasia sensorial, ou afasia de Wernicke, sendo então a perda da capacidade de identificar as “imagens auditivas” que evocam o significado das palavras. Isso explicaria por que pacientes com afasia de Wernicke não possuem dificuldades para produzir as palavras, mas sim para entender o seu significado, levando a neologismos e escolha incorreta de palavras. Dessa forma, quanto mais longa a palavra, maior a dificuldade do paciente para se expressar. A falha de conexão na união dos fonemas não implica apenas na dificuldade de falar ou escrever, mas também na compreensão das palavras.

Wernicke concentrou seus esforços no entendimento das afasias, classificando-as de acordo com as áreas do cérebro que seriam responsáveis pelos distúrbios apresentados. A extensão desse trabalho é notável, pois Wernicke chocou-se frontalmente com as opiniões vigentes na época, dentre elas a do também alemão Emil Kraepelin, o pai da psiquiatria moderna. Wernicke começou o estudo das afasias e foi o responsável pela maior profundidade nesse tipo de doença. Porém, foi seu discípulo Karl Kleist quem sistematizou e ampliou o conhecimento da psiquiatria nesse setor.

Wernicke morreu de forma trágica em 15 de junho de 1905, após ser atropelado por um caminhão enquanto andava de bicicleta, na cidade de Halle.


Considerações finais:

Apesar dos diversos avanços tecnológicos, especialmente no que diz respeito à neuroimagem e à correlação de sinais e sintomas com lesões cerebrais, a descrição da afasia de Wernicke mudou muito pouco durante os anos. É realmente incrível como Wernicke, no final do século XIX, conseguiu descobrir e correlacionar doenças mentais sem a ajuda dos aparelhos que atualmente os centros de pesquisa atuais têm acesso. Suas descobertas foram muito úteis não apenas para a neurologia, mas também para outros avanços no estudo da linguagem. Vale ressaltar que pacientes com suspeita de afasia devem ser avaliados por um Neurologista e Fonoaudiólogo. Existem inúmeras estratégias que podem ser utilizadas visando a reabilitação destes pacientes.

Referências:

1. Neurological eponyms, Oxford University Press, Editor: Peter J Koehler, George W Bruyn, John MS Pearce.

2. RUBENS DE CAMPOS FILHO, Os estudos das afasias por Carl Wernicke, REVISTA USP, São Paulo, n.56, p. 152-162, dezembro/fevereiro 2002-2003.

3. Imagem de Carl Wernicke.

Autores:

Dr. Fabrício Kleber

Dr. João Pedro Einsfeld Britz

Publicado originalmente em 2020 na plataforma Vitallogy.