Autores: Dr. Fabrício Kleber e Dr. João Pedro Einsfeld Britz
Foto por Jason Rosewell no Unsplash
A fala é uma das principais capacidades cognitivas do ser humano, possibilitando a interação e socialização entre as pessoas. Durante muito tempo a organização e execução da fala pelo nosso cérebro foi um completo mistério. Neste texto vamos contar a história de um paciente e um cirurgião excepcionais que mudaram a forma como entendemos o processamento cerebral da fala ainda em 1861. Vamos contar a um pouco sobre a descoberta da área de Broca.
Não temos dúvidas de que Tan foi um dos pacientes mais famosos na história da neurologia. Seu nome real era Leborgne, e desde a infância sofria com epilepsia e ganhava a vida fazendo moldes para chapéus. Após anos de crises convulsivas, a sua capacidade de falar se deteriorou progressivamente, e aos 31 anos, a única coisa que conseguia dizer era “tan tan”, que logo se tornou seu apelido. Em 1840, incapaz de realizar qualquer atividade, Tan foi recolhido ao hospital e casa de repouso de Bicêtre, nas proximidades de Paris. Tan conseguia dizer poucas coisas além de “tan tan”. Eventualmente quando irritado gritava “Sacré nom de Dieu!”, mas claramente ele não podia praguejar voluntariamente, apenas quando tomado pela raiva. Com a evolução da doença, Tan passou a perder a força e a sensibilidade do lado direto do corpo. Por conta do tempo prolongado restrito ao leito, Tan desenvolveu escaras (lesões de pele) graves em seu membro inferior, que após diversas infecções precisaria ser amputada. No dia 12 de abril de 1861, o cirurgião Paul Broca foi ao hospital realizar o procedimento.
Nascido no ano de 1824 em Sant-Foy-la-Grande, Pierre Paul Broca estudou medicina na Universidade de Paris. Se formou em 1844, e em 1853 Broca se tornou professor da universidade e foi nomeado cirurgião do hospital. Seu pai, Jean Pierre "Benjamin" Broca, também era médico, e atuou como cirurgião a serviço de Napoleão Bonaparte.
Além de ser um grande médico, Broca tinha grande interesse em antropologia, se dedicando ao estudo do crânio. Ele avançou na ciência da antropometria craniana, desenvolvendo novos tipos de instrumentos de medição (craniômetros), além de várias técnicas para estudar a forma, estrutura e topografia do cérebro e do crânio. Ele publicou cerca de 223 artigos sobre antropologia geral, antropologia física, etnologia e, em 1859, fundou a Société d'Anthropologie de Paris.
Seus contemporâneos o descreveram como uma pessoa generosa e gentil, sendo uma pessoa honesta e venerada por todos. Ele foi um trabalhador incansável e escreveu centenas de livros e artigos (53 deles dedicados aos estudos sobre o cérebro). Preocupava-se também com a atenção à saúde dos pobres, sendo uma figura importante na assistência pública da cidade de Paris. Perto do fim de sua vida, Paul Broca ainda foi eleito membro vitalício do Senado francês.
Ao encontrar Tan no hospital, Broca iniciou o atendimento perguntando ao seu paciente questões como sua ocupação, natureza de seus problemas, dados pessoais, e a resposta era sempre a mesma: Tan. Para a sorte de Broca, Tan havia se tornado um mímico exímio e conseguia se comunicar por gestos. Assim, quando Broca perguntou há quanto tempo Tan estava internado, ele esticou a mão aberta 4 vezes e depois o dedo indicador uma vez – 21 anos, que era a resposta correta de acordo com seus registros no hospital.
A partir dessa abordagem inicial, Broca determinou que Tan havia perdido a capacidade de falar, mas ainda era capaz de compreender a linguagem.
Apesar de ter realizado a amputação, a infecção já havia debilitando Tan, que faleceu na manhã de 17 de abril, e 24 horas após, intrigado com as alterações vistas no seu paciente, Broca decidiu abrir o crânio de Tan.
Dentro do crânio de Tan, Broca encontrou uma “sujeira”. O hemisfério esquerdo parecia esvaziado, e quase se desintegrou ao ser tocado, especialmente na região frontal, que continha uma cavidade apodrecida. Apesar da sujeira, o olho treinado de Broca notou um detalhe decisivo: a putrefação, embora disseminada, parecia ficar cada vez pior na medida que se aproximava da região posterior do lobo frontal, e Broca deduziu que essa era a lesão original. Como o sintoma de Tan havia sido a perda de fala, Broca concluiu que essa deveria ser uma área da linguagem, e dessa forma, decidiu apresentar o cérebro de Tan à comunidade científica de Paris. Inicialmente os achados de Broca não foram valorizados pela comunidade científica. Entretanto, após diversas outras autópsias em pacientes com sintomas semelhantes à Tan, e com alterações na área da linguagem, Broca passou a chamar mais atenção da comunidade científica, e passou a receber pacientes afásicos de diversos locais da Europa, e todos tinham a mesma lesão na parte posterior do lobo frontal. As causas eram diversas: tumores, infecções, infarto, sífilis. Mas o que importava aqui era a localização, que sempre se repetia.
Dessa forma, a região posterior do lobo frontal esquerdo (hemisfério dominante) passou a ser considerada a área de Broca, importante área da linguagem que torna possível a articulação da fala.
1. Sam Kean, The Tale of The Dueling Neurosurgeons, 2014, pag. 298 - 304
2. GUSMÃO, S; SILVEIRA, R. L; FILHO, G. C. Broca e o nascimento da moderna neurocirurgia. Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.58 n.4 São Paulo Dec. 2000 http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X2000000600028
Publicado originalmente em 2021 na plataforma Vitallogy.