Esclerose Múltipla
March 5, 2025
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4 min.

Esclerose Múltipla e o impacto do Exercício Físico

Autores: Dr. Fabrício Kleber e Acad. Ricardo Schultz Martins

Esclerose Múltipla e o impacto do Exercício Físico

Foto por Bruno Nascimento no Unsplash

A Esclerose Múltipla é doença crônica autoimune que afeta tanto a parte física como cognitiva de aproximadamente 2.3 milhões de pessoas no mundo – sendo considerada a disfunção neurológica não-traumática mais comum entre adultos jovens, na faixa etária de 20 a 40 anos. Esse fato é extremamente importante pois cerca de 80% dos pacientes vivem com a incapacidade causada pela doença por mais de 35 anos. Neste texto vamos revisar alguns pontos sobre esta doença focando no impacto positivo que o exercício físico pode trazer aos pacientes.

Embora não exista cura, seu tratamento é, muitas vezes, realizado com medicamentos imunomoduladores com o objetivo de alterar o progressão da doença, diminuindo a magnitude da doença e/ou freando a sua evolução e, geralmente, podem estar associados com vários efeitos colaterais. Por isso, a procura por intervenções não farmacológicas vêm recebendo uma maior atenção nos últimos anos. Um exemplo disso é que, desde 2015, a atividade física vem sendo considerada como uma ferramenta importante no arsenal terapêutico para a Esclerose Múltipla.

Tá, mas como o exercício físico age como tratamento para a Esclerose Múltipla?

Uma vasta gama de pesquisas recentes indicaram que o exercício físico tem propriedades neuroprotetoras que, essencialmente, impactam a progressão da doença, agindo sobre os dois processos fisiopatológicos principais da Esclerose Múltipla – o dano axonal e a desmielinização – devido à sua ação na expressão de genes produtores de neurotrofinas como o fator neurotrófico derivado do cérebro, fator de crescimento nervoso, fator de crescimento endotelial vascular, IGF-1 e neurotrofinas 3 e 4. Além disso, a inflamação é outra característica da Esclerose Múltipla e age potencializando o dano axonal e a desmielinização. A boa notícia é que o exercício físico tem propriedades anti-inflamatórias inibindo a produção de citocinas pró-inflamatórias como a IL-1, IL-2, IL-6 e IL-7 além do fator de necrose tumoral alfa e estimulando a produção de interleucinas anti-inflamatórias como a IL-4, IL-10, IL-13 e o fator de crescimento beta. Assim, o exercício físico regular age combatendo o tripé da esclerose múltipla.

Tá, entendi. Mas, como isso pode auxiliar no tratamento da Esclerose Múltipla?

Simples, o aumento nos níveis circulantes de neurotrofinas causado pelo exercício físico potencializa a neuroplasticidade aumentando a espessura do córtex cerebral em várias regiões apresentando uma tendência na preservação do volume cortical total e uma maior intregridade da substância branca – agindo assim, como um remodelador do sistema nervoso como mostrado na figura abaixo. Além disso, a mudança de um contexto pró-inflamatório para um anti-inflamatório também atua como uma neuroproteção reduzindo a desmielinização e o dano axonal.

Entendi, e quais são os impactos do exercício físico nos sintomas da Esclerose Múltipla?

O exercício físico regular impacta positivamente tanto as disfunções físicas como psicocognitivas relacionada à doença. Primeiro, o exercício – tanto aeróbico como anaeróbico – melhora a sensação de fadiga (devido a uma melhora na aptidão cardiorrespiratória), diminui a sensação de dor e melhora a capacidade funcional (mobilidade, equilíbrio e força muscular) do paciente. Segundo, o exercício físico regular está relacionado com uma diminuição nos sintomas depressivos e problemas cognitivos que, frequentemente, acompanham a doença. E, por último, associado as duas melhoras, está uma melhora na qualidade de vida do paciente.

E é seguro alguém que sofre com esclerose múltipla se exercitar?

Sim, o exercício físico é seguro e é reconhecido como uma opção de tratamento com efeitos benéficos em vários sintomas da esclerose múltipla. Porém, vale a pena lembrar que, embora o exercício físico tenha um efeito benéfico nos sintomas, se feito de maneira exagerada ou mal programada pode haver um efeito contrário com uma piora nos sintomas como dor e fadiga. Por isso, o acompanhamento com equipe multidisciplinar com Neurologista, Educador Físico e Fisioterapeuta é essencial.

Bibliografia:

1. Dalgas, U., Langeskov-Christensen, M., Stenager, E., Riemenschneider, M., & Hvid, L. G. (2019). Exercise as Medicine in Multiple Sclerosis-Time for a Paradigm Shift: Preventive, Symptomatic, and Disease-Modifying Aspects and Perspectives. Current neurology and neuroscience reports, 19(11), 88. https://doi.org/10.1007/s11910-019-1002-3

2. Motl, R. W., Sandroff, B. M., Kwakkel, G., Dalgas, U., Feinstein, A., Heesen, C., Feys, P., & Thompson, A. J. (2017). Exercise in patients with multiple sclerosis. The Lancet. Neurology, 16(10), 848–856. https://doi.org/10.1016/S1474-4422(17)30281-8

Autores:
Dr. Fabrício Kleber
Acad. Ricardo Schultz Martins

Publicado originalmente em 2021 na plataforma Vitallogy.