História
March 3, 2025
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Escala de Coma de Glasgow: história e conceitos básicos

Autores: Dr. Fabrício Kleber e Acad. Felipe Honorato‍

Escala de Coma de Glasgow: história e conceitos básicos

Foto por camilo jimenez no Unsplash

Em 1974, Bryan Jennett e Graham Teasdale, dois neurocirurgiões britânicos, publicaram o artigo “Asessment of Coma and Impaired Consciousness A Practical Scale” na revista científica The Lancet.[1] Embebido de situações rotineiras e pesquisas já existentes naquela época, o texto apresentava um novo sistema na prática clínica com o objetivo de avaliar objetivamente a extensão do coma e da consciência prejudicada em pacientes vítimas de traumatismo crânio encefálico ou lesão cerebral aguda. Este sistema é conhecido como Escala de Coma de Glasgow (GCS, abreviação do inglês Glasgow Coma Scale) e tornou-se uma das ferramentas mais utilizadas na prática clínica diária na Medicina de Urgência ao redor do mundo. Vamos revisar neste texto alguns detalhes sobre esta importante escala. [2]

A Escala de Coma de Glasgow (GCS) buscou padronizar a avaliação rotineira do grau de comprometimento da consciência. Consciência pode ser conceituada como a capacidade de estar alerta, acordado, e interagindo de forma eficiente com o meio ao nosso redor. A avaliação da consciência nem sempre foi uma tarefa simples e muitas vezes ocorria de forma não padronizada o que dificultava a análise dos resultados quando comparados em diferentes centros ao redor do mundo. A GCS visa avaliar o paciente no contexto de emergência na beira do leito de forma rápida e sistemática, possibilitando predizer a gravidade do comprometimento neurológico em pacientes vítimas de trauma cranioencefálico. Apesar de ter sido criado para a avaliação de pacientes com trauma hoje em dia observamos a utilização desta escala em inúmeros cenários clínicos de emergência. Vale salientar que a GCS foi desenvolvida para a avaliação do nível de consciência do paciente e não como uma ferramenta para avaliação ampla neurológica. Assim, temos limitações associadas com o seu uso e por este motivo temos escalas diversas com diferentes objetivos e aplicações, como por exemplo a escala de NIHSS para avaliação dos pacientes com AVC agudo.

A GCS é uma ferramenta utilizada na medicina e consiste na avaliação, por meio de sistemas de pontuações, de três aspectos importantes: abertura ocular, responsividade motora e desempenho verbal. Estes três parâmetros são analisados de forma separada, e a descrição de cada um deles pode ser expressa através das seguintes abreviações: E (resposta ocular), V  (resposta verbal) e M (resposta motora), variando de 1, quando não há resposta, até valores os valores máximos em cada ítem tais como 4 (resposta ocular), 5 (resposta verbal) e 6 (resposta motora), que são considerados normais. Nesse sentido, quanto menor a pontuação mensurada, maior será a gravidade do comprometimento da consciência e assim podemos inferir uma maior gravidade da lesão neurológica.

A representação das informações coletadas em geral é demonstrada através da soma de todos os parâmetros analisados. No entanto, podemos encontrar em prontuários médicos a descrição dos resultados tanto como a soma de todos os critérios quanto na individualização em cada elemento. Por exemplo, um paciente que tenha uma pontuação final de 9 (resposta ocular + resposta verbal + resposta motora) pode ser descrito como GCS 9 ou E3 V3 M3. Quando algum critério da Escala de coma de Glasgow não puder ser obtido, por conta de algum fator, como intubação, é primordial que a pontuação seja expressa em elementos individuais e o critério não-testável em NT.

A Escala de Coma de Glasgow foi associada a diversas diretrizes e guidelines de manejo precoce do trauma, bem como a outros sistemas de pontuações. Em 2018, o pioneiro Graham Teasdale, juntamente com Paul Brennan e Gordon Murray, combinaram o GCS com o parâmetro de reatividade da pupila (PRS). [2] Esta modificação permite avaliar dois dos principais indicadores de lesões cerebrais em um único índice, por meio do cálculo: GCSP = GCS – PRS. Desta forma, devemos calcular o escore da Escala de Coma de Glasgow da forma clássica e ao final retirar 1 ponto se o paciente apresentar Anisocoria (quando temos a dilatação de apenas uma das pupilas), ou 2 pontos no caso de Midríase bilateral (quando temos ambas pupilas dilatadas).

Presente há quase 40 anos, a Escala de Coma de Glasgow revolucionou o manejo de pacientes com urgências neurológicas como traumas ou lesões cerebrais agudas, sobretudo por conta da linguagem simples, objetiva e organizada. Nesse sentido, é imprescindível que os profissionais da saúde que lidam com pacientes em cenários de urgência conheçam a GCS.

Referências:

[1] TEASDALE, Graham; JENNETT, Bryan. Assessment of coma and impaired consciousness: a practical scale. The Lancet, v. 304, n. 7872, p. 81-84, 1974.

[2] JAIN, Shobhit; IVERSON, Lindsay M. Glasgow coma scale. 2018.

Autores:

Dr. Fabrício Kleber

Acad. Felipe Honorato

Publicado originalmente em 2022 na plataforma Vitallogy.