Autores: Dr. Fabrício Kleber e Acad. Luísa Stradioto Sartor
Foto por James Yarema no Unsplash
Adição é um processo patológico no qual o indivíduo se torna dependente de uma substância química. Os fatores que interferem nesse processo são genéticos, externos (como a exposição ao estresse crônico) ou condições psiquiátricas. É uma patologia que interfere principalmente nos mecanismos de recompensa do cérebro e no circuito da Dopamina (DA). Neste texto vamos revisar alguns dos detalhes sobre a neurofisiologia dos mecanismos de adição. Trata-se de um texto um pouco mais avançado e então acreditamos que será mais interessante para os acadêmicos e profissionais da área da saúde.
Os neurônios liberadores de DA que estão localizados na área tegumentar ventral (VTA) enviam projeções para o núcleo Accumbens (NA). Esse núcleo faz parte do circuito de recompensa que envolve a parte ventral do córtex pré-frontal, hipocampo ventral, amígdala e núcleo estriado. Em sua parte ventral, esse último apresenta duas vias de conexão com o NA, uma direta, ligada ao processo de recompensa e uma indireta, ligada ao processo de punição.
Além disso, as projeções dopaminérgicas da VTA para o NA se conectam, principalmente, a receptores dopaminérgicos D1 e D2. Os receptores dopaminérgicos tipo 1 possuem menos afinidade com a dopamina que os de tipo 2, e uma sensação maior de recompensa é alcançada quando ambos os receptores são estimulados. Esse estímulo pode ser natural, advindo de comportamentos naturais associados ao prazer como a alimentação ou sexo, ou induzido por drogas de abuso, como a cocaína, por exemplo.
No caso de um estímulo natural, os gatilhos que são ativados para que a recompensa seja buscada são silenciados quando esta é alcançada. Todavia, as drogas de uso recreacional continuam a estimular liberação de DA mesmo após sua utilização, sustentando a motivação para que o paciente continue a consumir e utilizar determinada substância. A transição de um consumo controlado para o compulsivo está associado a sub-regiões estriatais que participam do circuito de recompensa e também a parte dorsal do núcleo estriado, envolvida na formação de hábitos.
Outra parte importante do processo de adicção são as alterações no circuito da dopamina induzidas pelas drogas. Estudos, por meio da utilização de neuroimagem, demonstraram uma redução nos receptores D2 no núcleo estriado para a maior parte das drogas, com exceção da maconha. Baixos níveis desse receptor inibem a via indireta, reduzindo a estimulação tálamo-cortical e, portanto, reduz a atividade no córtex pré-frontal, responsável por tomada de decisões, controle do comportamento e demais funções cognitivas.
A exposição às drogas gera também um aumento das reações glutamatérgicas do córtex pré-frontal, hipocampo ventral e amígdala para as projeções estriatais que aumentam o nível de dopamina no NA e núcleo estriado. Conclui-se, portanto que o conhecimento dos processos que desencadeiam a dependência são importantes para caracterizá-la como doença e também para possíveis intervenções terapêuticas no futuro. Vale lembrar que a dependência química gera riscos muito importantes para a saúde do paciente. Assim, nos casos de suspeita de abuso de substância químicas um Psiquiatra deve ser consultado com brevidade.
1. VOLKOW, Nora D.; MORALES, Marisela. The Brain on Drugs: from reward to addiction. Cell, [S.L.], v. 162, n. 4, p. 712-725, ago. 2015. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2015.07.046.
Publicado originalmente em 2021 na plataforma Vitallogy.