Autor: Dr. Fabrício Kleber.
Foto por Leio McLaren (@leiomclaren) no Unsplash
Na parte anterior conseguimos estudar a via motora desde a origem do estímulo motor no Córtex Cerebral passando pela origem do nervo periférico na Medula Espinhal por fim chegando na comunicação entre o nervo e o músculo na Placa Neuromuscular. Este longo trajeto é responsável pela transmissão do estímulo motor mas não é a única rede neuronal (ou grupo de Neurônios) envolvida no controle do movimento. O movimento é uma tarefa complexa e por isso utiliza diversas regiões cerebrais para cumprir este objetivo.
Existe duas regiões importantes que auxiliam e regulam a ação do Córtex Motor que são os Núcleos da Base e o Cerebelo. Estas regiões não controlam de forma direta o movimento mas exercem uma regulação importante na qualidade e precisão do estímulo. Estas regiões funcionam como fiscais que analisam a informação motora que sai do Córtex Motor e a informação que chega na Medula Espinhal e no músculo. Assim, através desta fiscalização é possível corrigirmos o movimento até que este seja o mais próximo possível do objetivo motor inicial.
Os Núcleos da Base são constituídos por grupos de Neurônios presentes no interior do nosso Cérebro (ou na base do Cérebro), mergulhados na Substância Branca. Estes grupos de Neurônios se organizam em aglomerados que chamamos de Núcleos. Estes núcleos possuem uma rede de conexões complexa entre si além de receber informações de diversas regiões cerebrais sendo a principal delas o Córtex Motor. Após receber a informação motora do Córtex os Núcleos da Base analisam a informação e devolvem ao Córtex um estímulo capaz de ajustar a intensidade do estímulo enviando do Córtex para a Medula Espinhal.
A importância dos Núcleos da Base pode ser compreendida quando analisamos a Doença de Parkinson. Nesta doença um núcleo específico dos Núcleos da Base chamado de Subsctância Nigra começa e degenerar. A Substância Nigra é a principal responsável pela produção do Neurotransmissor Dopamina no nosso Cérebro. Devido a degeneração da Substância Nigra a quantidade de Dopamina cai drasticamente nos Núcleos da Base. Esta diminuição faz com que toda a rede de conexões dos Núcleos da Base se altere. Desta forma, a capacidade de estimular e auxiliar o Córtex Motor a ajustar o movimento diminui. Os pacientes com Doença de Parkinson então iniciam com lentificação dos movimentos, rigidez muscular, tremor de repouso, dificuldade para falar e caminhar.
A segunda região envolvida com o controle do movimento é o Cerebelo. O Cerebelo é uma estrutura cerebral encontrada na região mais baixa do nosso crânio, na Fossa Posterior, logo atrás do Tronco Cerebral. O Cerebelo possui muitos giros e sulcos o que lhe confere um formato que lembra uma árvore com uma grande copa. E por isso ele também já foi denominado de “A árvore da vida” por alguns anatomistas antigos. O Cerebelo possui uma estrutura complexa com diversos núcleos no seu interior e um Córtex Cerebelar na sua região mais periférica. O Cerebelo recebe informações de diversas regiões cerebrais sendo a principal o Córtex Motor.
O Cerebelo também age como um fiscal da atividade motora mas aqui o cuidado maior é com a precisão e coordenação do movimento realizado. O Cerebelo recebe cópias da informação motora que se origina do Córtex Motor e também recebe cópias do que está sendo realizado pela parte motora da Medula Espinhal. Assim, com estas cópias dos estímulos o Cerebelo pode comparar o que deveria estar ocorrendo com o que realmente está ocorrendo na execução do movimento. O Cerebelo também está envolvido com o aprendizado motor e é por causa do Cerebelo que aprendemos a andar de bicicleta na nossa infância e lembramos por quase toda a vida.
Doenças que podem causar lesões no Cerebelo como por exemplo Esclerose Múltipla ou Acidente Vascular Cerebral em geral cursam com prejuízo da coordenação motora. Estes pacientes podem apresentar dificuldade para caminhar, com um andar semelhante ao andar de um bêbado, dificuldade de fala, dificuldade para executar atividades motoras finas como escrever ou pegar um objeto e até mesmo dificuldade visual devido a dificuldade para focar os olhos em um ponto específico.
Falando em uso de álcool este é um exemplo interessante e que nos ensina muito sobre o nosso Cérebro. O álcool é uma substância que possui um efeito tóxico e sedativo para o nosso Cérebro quando utilizado em excesso. Além disso, o álcool possui grande penetração no nosso Cérebro pois consegue se difundir com facilidade na gordura, e sabemos que o nosso Cérebro possui grandes quantidades de gordura. Quando os níveis de álcool no sangue atingem níveis tóxicos a pessoa inicia com sonolência, fala arrastada, dificuldade para caminhar, ausência de coordenação motora, desinibição e até mesmo coma. Muitos dos sintomas descritos acima são resultado dos efeitos tóxicos do álcool sobre o Cerebelo e outras estruturas relacionadas com a via motora. Beba com moderação, seu Cérebro agradece!
No próxima parte vamos aprender sobre o controle da sensibilidade.
Publicado originalmente em 2019 na plataforma Vitallogy.